quinta-feira, abril 08, 2010

imagem aqui
como fugir
daqui
se não posso
fugir
de mim
Daniel Sant'Iago, aqui
o que não foi destruído ficou em silêncio
mas reparem: só o que perece não dói
a dificuldade é incinerar o que fica
o passado é pouco combustível
mas os dedos, como os nós, também se cortam
mas como dividir o que é inteiro
onde rasgar, em que linha imaginária
se ainda hoje todos os decretos
foram decretados nulos
foto daqui
... e de novo entre nós aquele choro
de quem não teve tempo de preparar
despedida com palavras certas,
porque as palavras certas
estavam todas em histórias erradas...
(desconheço a autoria)

quarta-feira, abril 07, 2010

há noites assim em que o silêncio
se transforma de leve numa lâmina
que minuciosamente rasga o linho
onde ficou esquecido o corpo
que habitávamos em provisórias madrugadas felizes
imagem aqui, texto aqui
... e já não posso adiar por mais tempo
as palavras que sempre soube terem
um prazo secreto de validade
para nos ferirem de morte...

quinta-feira, dezembro 03, 2009

foto © Ruslan Kadiev
Este amor que nos jorra - jorra e queima
em paixão que flutua ou já guerreia
contra si próprio se tornado cinza,
contra o destino se tornado areia...
Este amor é dilúvio - é fora e dentro
mesmo se sabendo que é candeia
a esmorecer em bruma, ao fogo lento
de nos deixar a dor quando se enleia à nossa desrazão, ao fim do entendimento,
à ambígua amarração de luz e de tormento
nestas bolsas de sal às vezes cheias.
Este amor é de carne - é foz patente
de um rio sempre a crescer, sempre na esteira
do que tão perto está mesmo se ausente.
João Rui de Sousa, Obra poética
foto © Julia Iwo
"entre a saliva e os sonhos
há sempreuma ferida
de que não conseguimos
regressar
e uma noite a vida
começa a doer muito
e os espelhos donde as almas partiram
agarram-nos pelos ombros e murmuram
como são terríveis os olhos do amor
quando acordam vazios"
(A.D.)