quarta-feira, abril 07, 2010

há noites assim em que o silêncio
se transforma de leve numa lâmina
que minuciosamente rasga o linho
onde ficou esquecido o corpo
que habitávamos em provisórias madrugadas felizes
imagem aqui, texto aqui
... e já não posso adiar por mais tempo
as palavras que sempre soube terem
um prazo secreto de validade
para nos ferirem de morte...

quinta-feira, dezembro 03, 2009

foto © Ruslan Kadiev
Este amor que nos jorra - jorra e queima
em paixão que flutua ou já guerreia
contra si próprio se tornado cinza,
contra o destino se tornado areia...
Este amor é dilúvio - é fora e dentro
mesmo se sabendo que é candeia
a esmorecer em bruma, ao fogo lento
de nos deixar a dor quando se enleia à nossa desrazão, ao fim do entendimento,
à ambígua amarração de luz e de tormento
nestas bolsas de sal às vezes cheias.
Este amor é de carne - é foz patente
de um rio sempre a crescer, sempre na esteira
do que tão perto está mesmo se ausente.
João Rui de Sousa, Obra poética
foto © Julia Iwo
"entre a saliva e os sonhos
há sempreuma ferida
de que não conseguimos
regressar
e uma noite a vida
começa a doer muito
e os espelhos donde as almas partiram
agarram-nos pelos ombros e murmuram
como são terríveis os olhos do amor
quando acordam vazios"
(A.D.)

terça-feira, junho 30, 2009

foto © foto Al Chizhik... como deixarei de sofrer enquanto não te vir?... Mas não importa, estou resolvida a adorar-te toda a vida... e asseguro-te que seria melhor para ti não amares mais ninguém. Poderias contentar-te com uma paixão menos ardente que a minha? Talvez encontrasses mais beleza..., mas não encontrarias nunca tanto amor, e tudo o mais não é nada... Mariana Alcoforado, Cartas Portuguesas (pref. e trad. de Eugénio de Andrade), (via A Dispersa Palavra) ** Este post foi extraído do blog: Plan(o)Alto dois

terça-feira, maio 12, 2009

Ninguém o vê.
É tanto e tão grande que me pergunto como não o vêem.
Procuro-o no espelho e nem eu o consigo ver, na verdade nem sei onde o procurar se o sinto em todo o lado.
Não o vêem? Não há mais estrelas, flores, não há mais feitiços nem sequer olhares. Ninguém vê o que está a morrer por dentro quando tudo vive por fora.
Como encontrei um dia a saída e perdi a entrada?
Morreu tudo e eu morri também.
Morrem as palavras no dia em que deixam de fazer sentido. O amor leva tudo, mata tudo. Morre o amor quando o matam, e eu morro com ele.
Sinto o cheiro do amor a decompor-se – amor, chamem-lhe outra coisa que não amor, porque as palavras estão a morrer e ele vai com elas. Sinto-o morrer, e nem capaz sou de o enterrar. Perdi as forças ao tentar lutar por ele.
Morreu e eu não tampouco sou capaz de o ressuscitar – não eu, não mais...
A vida morre também. Lá dentro de mim, num canto. Não consigo mexer-me dentro, não consigo mexer-me por fora.
Anestesiei -me um pouco, paralisei um pouco, morri um pouco.
As sensações, os momentos, os sonhos desfeitos, estão tão perto de mim que eu quase os consigo tocar.... Mas não, não há mais passos para dar. O meu corpo ainda quer caminhar de encontro a eles, mas é por dentro que estão as travas, e é por dentro que tudo morre. Caí em algum ponto. E paralisei. Morreram as palavras. A vida morre também num canto ao fundo do coração que nenhum espelho consegue ver e só me restam forças para pensar: Talvez haja uma razão para a vida. Morre-se, mas apesar de tudo, deve haver uma razão para a vida.
Mas, talvez.
Apenas talvez...
Porque me levaste todos os sonhos e me deixaste todos os medos?
...Sendo único e inesquecível cada momento
Que juntos vivemos e nos lembraremos para sempre.
Há duas formas para viver a sua vida:
Uma é acreditar que não existe milagre.
A outra é acreditar que todas as coisas são um milagre.
Albert Einstein