terça-feira, março 18, 2008

Dá-me a tua mão: Vou agora te contar como entrei no inexpressivo que sempre foi a minha busca cega e secreta. De como entrei naquilo que existe
entre o número um e o número dois, de como vi a linha de mistério e fogo, e que é linha sub-reptícia. Entre duas notas de música existe uma nota, entre dois fatos existe um fato, entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam existe um intervalo de espaço, existe um sentir que é entre o sentir - nos interstícios da matéria primordial está a linha de mistério e fogo que é a respiração do mundo, e a respiração contínua do mundo é aquilo que ouvimos e chamamos de silêncio. Dá-me a tua mão: Vou agora te contar como entrei no inexpressivo que sempre foi a minha busca cega e secreta. De como entrei naquilo que existe entre o número um e o número dois, de como vi a linha de mistério e fogo, e que é linha sub-reptícia. Entre duas notas de música existe uma nota, entre dois fatos existe um fato, entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam existe um intervalo de espaço, existe um sentir que é entre o sentir - nos interstícios da matéria primordial está a linha de mistério e fogo que é a respiração do mundo, e a respiração contínua do mundo é aquilo que ouvimos e chamamos de silêncio.
Clarice Lispector, aqui
Imagem daqui

segunda-feira, março 17, 2008

Das palavras
que aprendeste
só uma
não tem tradução.
Quando traduzes
o amor, tu sabes
que é já outro
o seu nome.
(...)
Albano Martins, aqui
Photo by Monimix
Este rosto de hoje,
assim triste,
assim magro,
é a memória.
Estas mãos de hoje,
assim vãs,
assim frias,
são o silêncio.
Esta boca de hoje,
assim branca,
assim breve,
é a ausência.
Este olhar de hoje,
assim ágil,
assim mudo,
é o cansaço.
Este corpo de hoje,
assim remoto,
assim seco,
é apenas um grito
de socorro.
Orlando Neves, aqui
sascha hüttenhain
E sonhei mais ainda
pois sonhei
também que me sonhavas.
Descobri
que nem mesmo
sonhaste o que te amei.
Na manhã
do teu rio em que me apago
ficaram,
desse sonho onde vivi,
as águas tristes
que não foram lago.
Lupe Cotrim, aqui
© photo by Monimix
Quando partires, às cegas,
pelas veias da cidade,
encontrarás quem de mim
diga que estou vivo, ou
o contrário.
E quando o fizeres,
ver-me-ás,
sozinho, de rosto
estampado
nos quadros da parede,
com as pálpebras
cerradas sobre o meu peito.
Sérgio Xarepe
texto daqui
imagem daqui
Ao regressares,
que linhas do meu rosto
te é dado perceber,
que sons da minha voz
podes de repente recordar?
Porque do dia em que foste
me esqueceu outro caminho:
esse em que casas e luas
se amontoam,
e as asas breves,
para poderem voar.
Helena Carvalhão Buescu
imagem daqui
texto daqui
sem saber
porque te amei assim,
porque chorei por mim,
sem saber
com que punhais tu feres,
magoas mais e queres,
sem saber
onde é que estás,
nem como,
o que te traz sem rumo,
sem saber
se tanto amor devora
mais do que a dor que chora,
sem saber
se em mim mudou a vida,
se em ti ficou perdida.
sem saber
se vais mudar,
se então
podes voltar ou não,
sem saber
da solidão depois
no coração dos dois,
sem saber
quanto me dóis na voz,
ou se há heróis em nós.
Vasco Graça Moura
poema extraído do blog "sentir sentido"
imagem extraída do site "shadowscape studio"